sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Custo

É claro que iria doer de vez em quando, este é o custo. E é claro que mesmo os regidos pelos sóis mais superadores sofrem em um domingo à noite, vendo Fantástico e comendo estrogonofe sozinhos. Signos de fogo. É, este é o preço. Alguns psicólogos dizem que para quem segue direitinho a receita, 6 meses é o suficiente. A gente levou uma noite só para sentir o que sente. Eu sinto. Sinto que errei também. "Pensamentos, atos e omissões". Mas a verdade é que quando falo em vez ou outra, não estou mentindo e é isso que me assusta. Estou aqui, linda, dirigindo a minha vida sem lembrar de nada, rindo alto como sempre, fazendo piada de tudo. Daí, no farol, do nada, alguém cruza a faixa e parece com você, com seu meu cabelo, com a sua minha roupa favorita, com o seu meu sorriso, com o seu meu café, com o seu meu desafeto. Doem, sangram. Depois somem. A saudade nunca consome a felicidade de um bom ariano, não nego.  No entanto, não negaria que ela existe. E quando algum gatilho aparece, tão logo me estranho, porque eu estava aqui dirigindo a minha vida numa boa, numa rua bonita, numa estrada enorme, e, do nada, mil gatilhos atravessam a faixa de pedestres. Esta saudade, picadinha, igual aquele jalapenho que você ama, dói uma vida inteira. Não todo dia, mas sempre com uma intensidade que fulmina e vai embora, do jeitinho que a gente fez.






sábado, 24 de setembro de 2022

Na ZL

Típico ariano, encontrei-te numa festa. Esperado para câncer, fez-te romance.  Eu servi vinho na caneca. Ce preparou chá na taça. A junção dos nossos astros se traduziu em noites viradas ao som de Gil. Em segundas veganas sob à luz da Betânia.  Praia no frio de São Paulo. 

Sempre espero ir, é isso que o ariano faz. Só começa, não termina, vai embora. Voltei. Um, dois, três... finais de semana. Minha intensidade te meteu medo. Sua corajem me deu segurança. Paixão? Acende, pausa. Continua só talvez. O amor é obra - construção. Os amigos me deram um mês. Já são quase três, só não tem nome. Não pelo signo, pelos ritos dos títulos. Sou exigente. Tão diplomada em partir, dessa vez, quero ficar. A primavera chegou, a gente não voltou para casa. Não precisa nomear, precisa ser. 

domingo, 17 de julho de 2022

Porteiro

Te vi  muitas vezes.

Por que  nunca disse?

Cê parecia distante.

Estava viajando.

Morei naquela casa também.

Quer cachaça?

Vai arder?

Áries com aquário.

Vim para isso.

Vou ficar fora.

Vai voltar logo?

Não sei.

Volta.

E o Mar?

E eu? 

Não te conheço.

Vim pra te ver. 

Vai voltar?

Sempre. 

 





sexta-feira, 15 de julho de 2022

Filtro dos sonhos

Assim como muitas pessoas, não acredito tanto em destino. O que nos diferencia é amar convencê-las do oposto.  Na verdade,  gosto de ver poesia em tudo, e quando ela não existe, bem...  a gente dá uma forçadinha. Outras vezes, o cáos dá uma super força.

Eu tenho um  filtro dos sonhos e ele é perfeito. Se ganhei esse acessório por destino ou sorte, não sei. Mas a narrativa é que foi o destino que trouxe esse objeto que, há anos, é-me essecial. Sou uma mulher de muitos sonhos e andanças, sou a dona do substantivo intensidade. Assim como disse Fernando Pessoa "tenho em mim todos os sonhos do mundo". E se os tenho todos, é bom ter um filtro para usar com eles (risos).  

Gostaria de me estender e contar os detalhes relativos a esse presente que "a vida me deu", mas  esta é uma história antiga e só me recordo de algumas coisas. É o causo de alguém que fez uma amiga por causa de um acidente e, depois, para agradá-la, foi a uma festa na qual estava super desinteressada. 

Quase arrastada, fui à tal festa. Aqui, advirto que, na maioria das vezes em que não coloco fé em uma atividade: quando não espero absolutamente nada de uma festa,  um passeio, um rolê e, até um encontro, a coisa sempre vira o jogo. A festa estava perfeita! Todavia, por ironia do destido, logo eu, a inimiga do fim, precisava ir embora e, pior, sozinha.  

Nesse tempo, a gente chamava táxis. Deixei a minha amiga encaminhada e chamei o meu. Fiquei mexendo no telefone e, quando reparei, do nada, o veículo já estava lá. Chateada por ir embora, mas feliz por estar, supostamente, tomando a decisão correta, apressei-me para entrar. Ao adentrar o carro, qual não foi a minha surpresa: já havia um passageiro. Desculpei-me pelo engano e fui saindo. Para a minha preocupação, o taxista avisou que por causa das condições do tempo, os outros táxis estavam indo embora e eu não ia conseguir debandar tão cedo. Agradeci e disse que esperaria. Para a minha alegria, mesmo sem  saber para aonde eu ia, o passageiro oficial me ofereceu uma "carona". Percebendo que o convite era fraterno, aceitei. 

No caminho, "como é de são efeito", fomos nos conhecendo. Descobri que ele estudou na mesma escola que as minhas primas, em uma cidade totalmente distante da que estávamos. Também estáva indo estudar na mesma cidade universitária em que uma delas estudou. Foi à festa, porque, de última hora, um amigo do seu quase "ex-laboratório" da pós-graduação o convidou. Sentindo-se deslocado, decidiu ir para casa. 

Sem grandes pretensões, trocamos nossos números. Ambos estávamos de mudança: ele dentro dois  dias, eu, de dois meses. Para minha surpresa, ele ligou. Para minha maior surpresa, encontramo-nos: um dia antes de ele mudar para outro estado. 

Na mesa de um bar que eu detestava, dialogamos por horas. Conversamos como, raramente, conversa-se em semanas. A gente se encontrou de verdade. Quando o estabelecimento fechou, partimos. Cada um para a sua casa. Nada que passamos, em tantos anos naquela cidade, tinha sido tão legal (dissemos). 

Viramos as costas e, tornando-nos amigos de redes sociais, perdemos o contato. É justo dizer que a culpa foi principalmente minha e, sobretudo, de uma época difícil da minha vida. 

Em alguns meses, procurou pela minha melhor amiga no Instagram,  pegou o endereço dela e, sem que eu soubesse, enviou-me o tal filtro dos sonhos de presente.

Hoje, a gente ainda conversa: eu, ele e o filtro. Eles me acompanham por toda parte, quer com os olhos, quer com a mochila. 

Depois de anos, brevíssimo, em um terceiro estado, reencontramo-nos. Foi o tempo de uma cerveja.  

No último eclipse, aconselhou-me a ir olhar o céu. Na última Super Lua, foi a minha vez de lhe alertar.

Não sei se acredito em destino, mas nestas histórias, sim. 

Quem sabe um dia esta terá final? Quem sabe já teve e é bem bonito.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Términos

Estava pensando comigo que os términos são sempre difíceis. Aliás, será que são? Da última vez que terminei um relacionamento, não tive tempo para sofrer. Não que não "quisesse", mas a vida estava batendo sonoricamente na minha porta e, de início, não deu para chorar na cama:  meu pai estava doente, meu avô estava doente, e, em seguida, também adoeci. 

Será que os términos são sempre difíceis? Talvez em parte. 

Chorei uma vez.  Pesada e sentidamente. Um choro meio filmico, daqueles de assoar o nariz. Com surpresa, tenho carinho por este dia. Sem falar nada, a minha mãe e o meu pai estiveram ali comigo, o que nos aproximou ainda mais. Ela fez um chá e deitou comigo na cama, ele me deu uma valeriana e um abraço. Ninguém pediu para eu para falar nada - melhorei. 

Depois destes dias, fiz uma viagem perfeita ao Rio de Janeiro, reencontrei a minha autoestima, senti-me linda, interessante, uma mulher incrível: estou assim até agora (risos).

E aí, a gente recomeça, como aconselha Miguel Torga. 

Mudei de casa, de vida, cativei e fui cativada por pessoas incríveis. Em 9 meses, voltei a ser quem eu era: a respirar e a ventilar a vida. Também tornei-me outra pessoa: mais bonita, mais alegre, mais feliz.  Não é exagero nenhum dizer que isso tem relação com o contexto que encontrei em minha nova cidade: valorização pessoal e profissional, um céu perfeito e um cinema beeem barato.

Pelas primeiras vezes, tenho sentido saudade. Antes, sentia uma raiva infinita e a sensação de que ela nunca passaria. Hoje, sentir essa saudade me assusta, mas também me cura. Voltar seria um desencontro comigo, não é só inviável, é inrealizável, reconhecer isso é maturidade. 

Neste processo, tenho aprendido que a decisão por nós é que não é fácil. Mais difícil que viver um término é ficar sozinho para enxergar seus defeitos de perto, sem precisar do contraste dos outros e, pior, sem poder culpá-los. Isso, sim, é tortura. Mas também é um processo de autocura, autoamor, (re)descoberta.

De fato, não sei responder se os términos são sempre difíceis. Pelo que conversamos, parece que sim, mas são também experenciados de formas diferentes. Alguns, como o meu, ficam em modo de espera e depois viram saudade. Passei quase 5 anos ao lado de uma pessoa e, ao terminar, fui da raiva ao autoamor. 

Agora, tenho me ocupado com algo em que sempre acreditei: "o imperioso".  Deixo a vida fluir e, curiosa, observo seus movimentos. Não ato e nem desato nós. Só acompanho, dançando, o movimento das cordas. Com intensidade, apaixono-me pelo dia e suas oportunidades, mas sem qualquer "sufoquidão". 

Abaixo,  a minha adaptadação de Sisífo:

SÍSIFO - Miguel Torga

Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciada,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És mulher, não te esqueças
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…


sábado, 4 de junho de 2022

Organizando medos e coragens



Escrever ao som do spotify tem sido uma tradição. É uma forma de relaxar - pelo menos um pouco. Como sempre repito, não escrevo porque quero, mas porque preciso. Muitas vezes, esse ofício dói. Enfrentar os fantasmas, antes, significa encará-los. Sim, um clichê. Mais um, dentre tantos outros deste espaço. Sou um clichê humano: poemas e dramas passageiros. Hoje não será diferente. 


Neste momento, estou ouvindo um som chamado “Meu número”. Esta canção não tem absolutamente nenhuma relação com o meu movimento de vida e tão pouco  com o que preciso dizer, mas é uma ótima música (risos). Além disso, ela me deu uma abordagem para iniciar esta conversa. 


Na canção, o eu-lírico declara: “o meu número nunca mudou”. Ademais da minha compaixão por essa persona que deseja amor e demonstra apego, fiquei pensando que, ao contrário dela, o meu número já mudou duas vezes: há dez e doze anos.


A primeira troca de telefone se deu quando me mudei de São Paulo para Minas Gerais. Neste momento, eu e os meus 19 anos saímos de mãos dadas nos achando os desbravadores. De lá para cá, tanta coisa aconteceu. Fui para fazer graduação, apavorada em não dar conta do recado e não fazer amigos. Na atualidade, sou doutoranda e mantenho grandes amigos da faculdade e do mestrado. A segunda alteração rolou quando fui cursar uma licenciatura em Portugal. Nessa época, não havia Whats'App. 


Mas esse diálogo não é para falar sobre os meus números, essas trocas são apenas sintomas de outras mudanças. Assim como as das minhas caixas postais. Se essas sequências numéricas mudaram, é porque mudei de espaços físicos e psicologicamente. Entre esse percurso de graduações, mestrado e uma pandemia, mudei seis vezes de cidade e nove de casa. O que isso significa, estou sempre descobrindo. A princípio - braços fortes, de tanto arrastar mala, e casas para passar as férias em diferentes partes do globo. 


Também significa a falta de um lar fixo: outra vez, física e psicologicamente. Não que meus amigos não cumpram esse papel do ponto de vista afetivo. Na verdade, eles são TUDO, são meus anjos. O problema é que, uma hora na vida, a gente precisa de um lugar para se aquietar. Depois dos 30 e algumas doenças genéticas, isso se intensifica bastante. Intensidade para mim era outra coisa. São escolhas. Amo as que fiz. Por mais difíceis e amedrontadoras, não faria nada diferente. Mas, ué, por que, então, este texto?


Há duas semanas, outra vez, mudei-me. Depois de doze anos, regressei para São Paulo. Passei pouco tempo, mas o suficiente para ficar doida pela minha casinha e já começar a pensar na adoção de plantas e gatos. Apesar disso, em algumas horas, outra vez, vou me mudar, dessa vez para o interior. O diferencial desse momento é a minha reclamação por passar 15 semanas (e contando) morando longe do meu novo lar “oficial”. Parece que a pessoa de 2022 não está tão mais desbravadora como aquela de 2010. 


Por outro lado, o diferencial, neste momento, é a animação por tantas histórias que estão para acontecer. Pelas belezas que esses dias me proporcionarão. O medo, dessa vez, vem com mais certezas, mais esperanças. Se eu pudesse voltar atrás e abraçar cada versão de mim, eu diria “mais fé e menos ansiedade''. Depois, agradeceria por elas terem passado momentos tão difíceis e, ainda assim, dentre tantas durezas, trazido-me até aqui. Agora é só aguardar o que a versão pós interior contará. Espero que ela olhe para essa de hoje com a mesma animação (contraditória) e esperança que estou tendo. Que venham os novos tempos! Querido mundo, vou continuar te abraçando com as pernas! 

E os números? Bem, os de telefone já não mudam. E a caixa postal oficial passou a ser sempre a dos meus pais.

domingo, 20 de março de 2022

Com Poetas

Estava aqui conversando com os poetas e a verdade é que não chegamos a um consenso. Hoje a conta não vai fechar. Hoje estamos todos  bem Renato parafraseando Camões. O ápice com os maus do século é questionar o que tem de tão agradável nessa dor. Vontade de ir e ficar. Vontade de assistir a um filme que já terminamos e  pausamos várias vezes. Você já assistiu algum audiovisual com um poeta? Netflix ou Amazon? Fazia tanto tempo que eu não bebia, mas poetas são companheiros incríveis. Essa gente é tão intensa que apenas uma Stella Artois me deixou chapada. Pouco costume, pouco sangue ou ótimas razões? O que são, afinal, os trinta? Os poetas não sabem. Leminski não ganhou prêmios.  Estamos aguardando a melhor oportunidade. Esperando qualquer uma. São tantos sentimentos nesse quarto. Fernando não tem todos eles, mas Pessoa tem todos os sonhos do mundo. Nunca comentou sobre o dinheiro. O problema é que a conta não fecha. Como diria Nina Morena, "a inflação não favorece os romances latino-americanos". Hoje eu e a Stella estamos na companhia dos poetas, dos filmes e das paredes nas quais tento escrever. Em geral, a gente se resolve lá fora. Todo dia, voltamos radiantes. Somos os sóis das noites. Hoje está chovendo e eu estava aqui conversando com os poetas. A verdade é que a conta não fecha. 

Só isso.