As páginas em branco. de tempos em tempos, em sua maioria, de anos em anos, mais especificamente, sempre me causam incômodo. Olhar esses espaços virtuais esperando algo de bom a oferecer (a mim mesma) sempre incomoda. Não gosto do processo, gosto do resultado! É bem terapêutico materializar algumas composições que me orgulhem, e, de certas feitas em certas feitas, lembrem-me quem fui, sou e quero ser.
Para além dessa incomodação, via de regra, fico dias, meses, anos com um texto querendo sair. É meio como uma cólica mental. Coisas que vejo, sinto e atravesso ficam ali penduradas ao sol, ao vento, à chuva, etc. tudo o que surgir no varal da vida.
Desde que mudei para São Paulo, não teve incômodo forte o suficiente para paralizar esse looping infinito da rotina, nem mesmo uma defesa de um doutorado. Será que o problema é a cidade, o signo ou só as prioridades?
Em geral, esses alinhamentos textuais saem de grandes incômodos para eu me reorganizar. Este hodierno é irresolvível. Recentemente, alguém que fez parte da minha vida, mesmo sendo cinco anos mais novo, fez a passagem para o lado da hipótese sem quaisquer despedidas: não só de mim, mas de ninguém. Um tiro nas costas, em um sábado à noite, em uma cidade bem improvável. Menos que nunca fazer o mal, este mineiro sempre fez o bem. Viveu bonito e contrastivamente tranquilo ao seu fatídico ponto de ida. Parafraseando Manoel de Barros, diria que, andando devagar, ele atrasou inúmeros fins de dia e, inclusive, alguns dos nossos fins.
Não somos, no entanto, capazes de atrasar o final da vida, nem de prever que uma mensagem trocada há dois anos seria a última memória em meio a tantos capítulos recordáveis.
Hoje faço 35, faço trilha e bebo várias garrafas de café, bem como a gente fez quando pôde: goles e goles de vida à sobressalto. Vá em paz, O. desculpe qualquer coisa.